Algoritmos ou inteligência artificial podem impactar nossas crenças nas eleições?

22 nov de 2016, por OKBR

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Por Thiago Rondon*

É inegável que o nosso modelo atual de economia e organização social apresenta dificuldades efetivas de participação por falta de ferramentas ou mecanismos para lidar com grande número de pessoas em rede, o que provavelmente nos torna uma sociedade egocêntrica e não orientada em buscar soluções para o ecossistema. De maneira geral, ainda delegamos decisões sobre o ecossistema também para indivíduos.

Sistemas de inteligência artificial estão prevendo, de maneira assertiva, diversas questões, com olhar no ecossistema de informação sem distinção. Um exemplo disso: é um sistema que previu corretamente as últimas quatro eleições americanas, incluindo a do Trump. Esta solução é a MogIA, que utilizou cerca de 20 milhões de pontos de dados em plataformas online como Google, YouTube e Twitter.

“Embora a maioria dos algoritmos sofra vieses do desenvolvedor, MogIA visa aprender a partir de seu ambiente, desenvolvendo suas próprias regras na camada de política e, assim, desenvolver sistemas de especialistas sem descartar quaisquer dados”, diz Sanjiv Rai, fundador da Índia Genic.ai startup que desenvolveu MogIA.

O Facebook foi criado como modelo de negócios para que artigos e conteúdos relevantes por meio de engajamento e afinidades dos usuários tenham prioridade com relação à verdade, transformando o editorial de notícias no que cada usuário quer ler para passar a maior parte do tempo na plataforma. Desse modo, as chances de vender anúncios aumentam.

Para demonstrar como a realidade pode diferir entre usuários do Facebook, o The Wall Street Journal criou duas visualizações por meio  de dois perfis, um “azul” e outro “vermelho”. A partir disso, comprovou que as notícias que aparecem na linha do tempo de cada um dos usuários tiveram base no fato  de serem conservadores ou liberais, criando duas hiper bolhas políticas.

Estas hiper bolhas estão nos tornando cegos para a pluralidade, como podemos comprovar em momentos como as eleições que acreditamos que todos votam como nós, por estarmos olhando apenas para uma parte do mundo que é o que nos identificamos melhor via crenças pessoais e emoções, estimulando nossos egos nas redes sociais.

Claire Wardle, diretora de pesquisa do “Tow Center for Digital Journalism“, disse: “O Facebook tropeçou no negócio de notícias sem sistemas, estruturas editoriais e diretrizes editoriais, e agora está tentando corrigir o curso.”

Mídias sociais são plataformas projetadas para possibilitar a interação social a partir do conhecimento e da criação colaborativa de informações. Trata-se da produção de conteúdos de forma descentralizada e sem o controle editorial de grandes grupos.

E quando essas informações criadas sem controle podem se tornar prejudiciais ao ecossistema? Em relação às eleições americanas, o Facebook está sendo cobrado por se abdicar da sua responsabilidade de validar as fontes das notícias que circulam na rede – tendo, desse modo, beneficiado o candidato Trump na eleição por diversos outros motivos externos, que geralmente são de ações que não são de responsabilidade ou criação da empresa.

É plausível que táticas ou algoritmos possam beneficiar propositalmente ou não alguns candidatos nas eleições. Há pesquisas relatadas na Globsec 2016 que comprovam que notícias de conspiração são compartilhadas três vezes mais do que notícias reais, assim como estudos do impacto de veracidade de informações baseado em fact-checking sugerem que negar informações não impacta opinião das pessoas, mas sim afirmar de que o contrário é verdade, como o Nyhan e Reifler.

Muitos podem alegar que nós estamos sendo manipulados ou influenciados, mas quando não fomos? No Brasil, o uso de tecnologia foi a discussão de militantes e políticos pelo uso orquestrado de aplicativos de comunicação, como o WhatsApp, sendo utilizado por igrejas, partidos políticos e movimentos sociais para demandar ações. A tecnologia já está claramente impactando a política, como foi o caso da eleição do Obama com o uso do crowdfunding. As redes de humanos funcionam e ganharam escala com a tecnologia. Mas será que está impactando a democracia e o nosso ecossistema?

Há diversos atores buscando uma resposta para o resultado das eleições americanas, e uma discussão interminável sobre como o Trump se beneficiou das mídias sociais, precisamente da rede de Zuckerberg. Um dos motivos que estão apontando a responsabilidade para o Facebook nas eleições dos Estados Unidos, é que comprovadamente grupos se organizaram para espalhar notícias falsas a favor do Trump, como o caso dos 140 sites sobre política americana que veiculavam conteúdo pró-Trump na Macedônia e tinham como objetivo viralizar no Facebook. Não há, no entanto, evidências de que o Facebook diretamente beneficiou o Trump.

Por outro lado, nesta mesma eleição, a tecnologia e as redes nos proporcionaram a possibilidade de que jornalistas pudessem realizar fact-checking, que é o processo de realizar e mostrar uma validação de argumentos ou discurso em  tempo real em debates e pronunciamentos públicos. Provavelmente ele será muito utilizado nas próximas eleições no Brasil por um grupo de eleitores para definir seus votos e, por outros, para afirmar na sua bolha e para seu ego de que o outro candidato é um mentiroso. Esse é o serviço cívico vital nas eleições, pois o que poderia ser mais importante do que responsabilizar os políticos por suas reivindicações durante o processo eleitoral?

O Google está investindo para que organizações jornalísticas de confiança do público possam afirmar que uma determinada notícia é verdadeira, terceirizando, desta maneira, a responsabilidade para grupos especializados desta rede, e provavelmente uma solução que possa escalar pela promoção e reconhecimento do fact-checking.

O estudo de Nyhan e Reifler revela como leitores foram impactados com o fact-checking por meio de pesquisas pós-exposição à verdades. A taxa de respostas corretas aumentou de 12% para 19% entre as pessoas com baixo conhecimento político e foi ainda mais eficaz entre as pessoas com “alto conhecimento político “, que foi de 22% para 32%. Ao mesmo tempo, muitos experimentos em psicologia e ciências políticas dizem que nova informação factual não muda, necessariamente, crenças errôneas, pré-existentes.

O fact-checking pode ser a ferramenta para controlar as mentiras na rede, mas será que vamos conseguir impactar as emoções e as crenças errôneas? Estudos recentes nos dizem que estamos avançando, mas aparentemente o impacto é maior para fortalecer nossas crenças pré-existentes, e provavelmente o grande desafio para os próximos anos será que as mentiras nos farão repensarmos no que devemos nos apoiar.

É inegável que nunca tivemos tanto acesso à informação e à facilidade para se comunicar. Porém, ainda utilizamos esses mecanismos para o nosso ego, o que evidencia o atual algoritmo do Facebook em priorizar a opinião do indivíduo para mostrar o que acontece com sua rede de interesse e contatos, atuando como um gatekeeper influenciável pelo próprio leitor, apesar de não ser clara suas regras para essa construção.

Este é um momento em que quase metade dos americanos que poderiam participar do processo eleitoral, não votaram. No Brasil, há taxas altas de votos em branco, nulo ou abstenção em todo o país. Qual é o fator de decisão do processo eleitoral?

Partindo do pressuposto que atualmente não vivemos em um mundo virtual ou na Matrix, sem evidências de que nenhuma droga foi aplicada nos humanos para influenciar seus votos, ou mesmo nenhum vírus impactou os sistemas de votações, isto nos faz pensar: os humanos ainda estão no controle. A tecnologia está amplificando nossas vozes que são nossos interesses por meio de canais que valorizam nossos atuais posicionamentos, evidenciando a polarização, assim como nossas afinidades baseadas em emoções e crenças pessoais evidenciam nossas bolhas.

Nossa democracia atual é analógica. Ela permite uma participação mínima que se mostra para a maioria da população apenas no processo eleitoral e que promove sistemas baseados em ego e não em ecossistema. A tecnologia já está inovando e transformando a forma de fazer política, mas ainda não está transformando o sistema democracia. Ainda é necessário promover uma cultura de ecossistema em rede, e o único meio para isso é construir novas tecnologias sociais.

Precisamos de uma mídia social que possa transformar polarização em consenso e bolhas em pluralidade. Para que isso possa acontecer,  precisamos promover dispositivos de confiabilidade, como o fact-checking, para impactar positivamente o ecossistema e as nossas crenças.  Caso contrário, iremos apenas isolar as bolhas sem o poder de construir ecossistemas e o controle social.

* Thiago Rondon é diretor da startup studio EOKOE, fundador do AppCívico que atua com tecnologias para causas sociais e é conselheiro da Open Knowledge Brasil.


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