Advocacy e Pesquisa

Estudo revela que quase 70% dos dados de ocupação de leitos do país têm problemas

08 abr de 2021, por OKBR

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Análise inédita do Censo Hospitalar feita pela Open Knowledge Brasil mostra que, um ano após implantação de sistema pelo Ministério da Saúde, registros não são confiáveis para monitorar leitos em todo o país

Em 9 de abril, completa-se um ano desde que o Ministério da Saúde determinou que todos os hospitais têm a obrigação de preencher diariamente o chamado “Censo Hospitalar” — um sistema para registro da oferta e ocupação de leitos, tanto de forma geral, quanto os específicos para pacientes com Covid-19. Uma análise inédita da Open Knowledge Brasil (OKBR) mostra que, apesar de coletados, esses dados estão longe de servir como parâmetro sobre o tema: 68% dos registros apresentam pelo menos algum tipo de problema.

Inconsistências no preenchimento da ocupação de leitos e desatualização estão entre as falhas identificadas; 87% dos estabelecimentos com UTI do país apresentam taxas de ocupação exorbitantes, indicando problemas de registro, enquanto 31% dos hospitais não atualizam seus registros há pelo menos duas semanas — 24% não fazem isso há mais de 90 dias.  

“A partir dos dados que analisamos, é muito difícil pensar que essas informações estão sendo consideradas para o enfrentamento da pandemia pelo Ministério da Saúde, pois estão ou bastante defasadas ou distorcidas com a falta de padrão”, ressalta Fernanda Campagnucci, diretora-executiva da OKBR. “Se esses forem os únicos dados disponíveis, podemos considerar que o país está se planejando no escuro”, completa. 

Hoje, a principal forma de monitoramento da ocupação de leitos se dá pela porcentagem de que os estados informam, principalmente para os leitos destinados especificamente à Covid-19, sem que haja detalhamento dessas informações para uma checagem independente.  

O estudo da OKBR avalia a disponibilidade e qualidade dos dados relativos à ocupação de leitos hospitalares no Brasil, disponibilizados pelo Ministério da Saúde por meio de uma API (Application Programming Interface, ou, em português, Interface de Programação de Aplicação).

Para verificar a consistência dos dados, também foram analisadas informações sobre oferta de leitos contidas no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e taxas de ocupação reportadas pelas Secretarias de Saúde estaduais em seus respectivos sites. Foram encontradas discrepâncias significativas em ambas as comparações. Em relação ao CNES, os dados obtidos via API apresentam divergências em 18% dos registros; na comparação com os dados dos estados, apenas 6 dos 27 entes tinham diferenças médias menores que 20% em relação ao Censo.

Enquanto a vacinação avança lentamente no país, a pandemia vem dando sinais de permanência em níveis críticos, observados no aumento de casos e novos recordes de óbitos a cada dia. Com isso, a pressão sobre os sistemas de saúde e a necessidade de monitoramento contínuo também permanecem.

“Monitorar as taxas de ocupação hospitalar é um procedimento fundamental para mensurar o quão próxima da oferta se encontra a demanda por leitos, permitindo que estados e municípios organizem seus estabelecimentos de saúde para atendê-la”, explica Danielle Bello, coordenadora de Advocacy e Pesquisa da OKBR. A ocupação de leitos funciona ainda como um “termômetro”, que indica se as ações de enfrentamento empregadas pelos governos estão sendo eficazes para conter o vírus e adequadas àquele momento específico da pandemia.

Além de identificar problemas, o relatório também aponta a importância da existência de um método para coletar informações diárias sobre a ocupação de leitos com abrangência nacional e traz recomendações visando à melhoria dos registros para um monitoramento mais preciso da pandemia e a continuidade desse processo como um legado para o SUS.

“Faz toda diferença para a qualidade dos registros se há uma percepção de que esse sistema é útil, ou seja, que os dados são usados para monitorar a situação no estado e município”, defende Campagnucci. “Do contrário, ele é simplesmente visto como mais uma obrigação em meio a um cenário de sobrecarga de tarefas”.

Confira a íntegra do estudo aqui.


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